A disponibilidade de máquinas, trabalhadores e equipamentos ajuda a definir como diferentes grupos do Pantanal reagem aos incêndios. Um estudo publicado em julho de 2026 no Journal of Pyrogeography mostra que pecuaristas tendem a depender menos de instituições públicas do que moradores de comunidades tradicionais quando o fogo ameaça propriedades e territórios.
A pesquisa analisou entrevistas com 67 pecuaristas e 48 moradores de comunidades tradicionais de 16 municípios do Pantanal. O levantamento foi realizado entre outubro de 2021 e fevereiro de 2022 e teve como referência os grandes incêndios registrados em 2019 e 2020.
O trabalho buscou entender a quem esses grupos recorrem em situações de incêndio e quais fatores influenciam a necessidade de apoio externo.
Entre os autores está André Valle Nunes, diretor de programas e projetos da Ecoa. O estudo também reúne pesquisadores ligados à UFMS, USP, UFRJ, Embrapa Pantanal e Cemaden.
Máquinas e mão de obra reduzem dependência de apoio
Os resultados apontam que os pecuaristas foram 67% menos propensos que os moradores de comunidades tradicionais a buscar ajuda de instituições formais.
A presença de equipamentos também teve peso significativo. Segundo o estudo, cada máquina adicional disponível reduziu em 37% a probabilidade de procura por apoio institucional.
Nos locais com mais de três trabalhadores, essa chance caiu 73%.
Os pesquisadores identificaram que propriedades rurais dispunham com maior frequência de tratores, caminhões-pipa e funcionários próprios. Já as comunidades tradicionais dependiam mais de equipamentos compartilhados, pequenas bombas, veículos comunitários e apoio de terceiros.
Distância até os centros urbanos e experiência anterior com incêndios, por outro lado, não apresentaram relação significativa com a procura por instituições.
Comunidades enfrentam impactos diferentes
O estudo também destaca que o fogo pode produzir consequências distintas conforme o tipo de território atingido.
Em comunidades tradicionais, incêndios podem comprometer moradias, fontes de água, áreas de produção e outros recursos diretamente relacionados à subsistência.
Essas populações também possuem conhecimentos próprios sobre o uso do fogo em pequena escala, empregados historicamente em atividades como manejo de roças e retirada de mel.
O problema, segundo os pesquisadores, surge quando os incêndios atingem grandes proporções e ultrapassam a capacidade de resposta disponível localmente.
Nesse cenário, a diferença no acesso a equipamentos e mão de obra torna-se mais evidente.
Redes de cooperação ganham importância
A pesquisa aponta que comunidades tradicionais conseguem compensar parte da limitação de recursos por meio da cooperação entre moradores, compartilhamento de equipamentos e relação com instituições públicas.
Depois dos grandes incêndios registrados no Pantanal, brigadas privadas, Corpo de Bombeiros, Prevfogo/Ibama, organizações não governamentais e produtores rurais passaram a atuar de maneira mais integrada em determinadas regiões.
Enquanto produtores podem contribuir com máquinas e trabalhadores, organizações da sociedade civil atuam em áreas como logística, combustível, alimentação e transporte.
Para os pesquisadores, essa articulação é importante porque incêndios de grandes proporções não respeitam limites de propriedades ou territórios.
Incêndios extremos colocam autonomia à prova
O estudo faz uma ressalva sobre os resultados: as entrevistas foram realizadas após um período de incêndios excepcionalmente severos no Pantanal.
Por isso, a capacidade de alguns proprietários rurais de responder ao fogo com recursos próprios pode não ser suficiente caso eventos de grande escala se tornem mais frequentes.
Os autores defendem o fortalecimento de redes envolvendo comunidades tradicionais, produtores rurais, instituições públicas e organizações da sociedade civil.
Entre as medidas apontadas estão treinamento contínuo de brigadas, compartilhamento de recursos e planejamento conjunto para prevenção e resposta a incêndios.
Da Redação
Foto: Assessoria