13 de Ago, 2026
Estudo aponta desigualdade no combate a incêndios no Pantanal
12 de Ago, 2026

A disponibilidade de máquinas, trabalhadores e equipamentos ajuda a definir como diferentes grupos do Pantanal reagem aos incêndios. Um estudo publicado em julho de 2026 no Journal of Pyrogeography mostra que pecuaristas tendem a depender menos de instituições públicas do que moradores de comunidades tradicionais quando o fogo ameaça propriedades e territórios.

A pesquisa analisou entrevistas com 67 pecuaristas e 48 moradores de comunidades tradicionais de 16 municípios do Pantanal. O levantamento foi realizado entre outubro de 2021 e fevereiro de 2022 e teve como referência os grandes incêndios registrados em 2019 e 2020.

O trabalho buscou entender a quem esses grupos recorrem em situações de incêndio e quais fatores influenciam a necessidade de apoio externo.

Entre os autores está André Valle Nunes, diretor de programas e projetos da Ecoa. O estudo também reúne pesquisadores ligados à UFMS, USP, UFRJ, Embrapa Pantanal e Cemaden.

Máquinas e mão de obra reduzem dependência de apoio

Os resultados apontam que os pecuaristas foram 67% menos propensos que os moradores de comunidades tradicionais a buscar ajuda de instituições formais.

A presença de equipamentos também teve peso significativo. Segundo o estudo, cada máquina adicional disponível reduziu em 37% a probabilidade de procura por apoio institucional.

Nos locais com mais de três trabalhadores, essa chance caiu 73%.

Os pesquisadores identificaram que propriedades rurais dispunham com maior frequência de tratores, caminhões-pipa e funcionários próprios. Já as comunidades tradicionais dependiam mais de equipamentos compartilhados, pequenas bombas, veículos comunitários e apoio de terceiros.

Distância até os centros urbanos e experiência anterior com incêndios, por outro lado, não apresentaram relação significativa com a procura por instituições.

Comunidades enfrentam impactos diferentes

O estudo também destaca que o fogo pode produzir consequências distintas conforme o tipo de território atingido.

Em comunidades tradicionais, incêndios podem comprometer moradias, fontes de água, áreas de produção e outros recursos diretamente relacionados à subsistência.

Essas populações também possuem conhecimentos próprios sobre o uso do fogo em pequena escala, empregados historicamente em atividades como manejo de roças e retirada de mel.

O problema, segundo os pesquisadores, surge quando os incêndios atingem grandes proporções e ultrapassam a capacidade de resposta disponível localmente.

Nesse cenário, a diferença no acesso a equipamentos e mão de obra torna-se mais evidente.

Redes de cooperação ganham importância

A pesquisa aponta que comunidades tradicionais conseguem compensar parte da limitação de recursos por meio da cooperação entre moradores, compartilhamento de equipamentos e relação com instituições públicas.

Depois dos grandes incêndios registrados no Pantanal, brigadas privadas, Corpo de Bombeiros, Prevfogo/Ibama, organizações não governamentais e produtores rurais passaram a atuar de maneira mais integrada em determinadas regiões.

Enquanto produtores podem contribuir com máquinas e trabalhadores, organizações da sociedade civil atuam em áreas como logística, combustível, alimentação e transporte.

Para os pesquisadores, essa articulação é importante porque incêndios de grandes proporções não respeitam limites de propriedades ou territórios.

Incêndios extremos colocam autonomia à prova

O estudo faz uma ressalva sobre os resultados: as entrevistas foram realizadas após um período de incêndios excepcionalmente severos no Pantanal.

Por isso, a capacidade de alguns proprietários rurais de responder ao fogo com recursos próprios pode não ser suficiente caso eventos de grande escala se tornem mais frequentes.

Os autores defendem o fortalecimento de redes envolvendo comunidades tradicionais, produtores rurais, instituições públicas e organizações da sociedade civil.

Entre as medidas apontadas estão treinamento contínuo de brigadas, compartilhamento de recursos e planejamento conjunto para prevenção e resposta a incêndios.

Da Redação
Foto: Assessoria




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