27 de Mar, 2026
Liderança indígena de MS defende união entre saberes na COP15 em Campo Grande
26 de Mar, 2026

Durante a COP15, realizada em Campo Grande, lideranças indígenas, especialistas e representantes de organizações ambientais discutiram estratégias para fortalecer a conectividade ecológica e a preservação de espécies migratórias. Entre os participantes, o líder indígena kadiwéu Gilberto Pires, da Funai em Bonito, defendeu a união entre conhecimentos científicos e tradicionais como caminho para enfrentar os desafios ambientais.

Pantaneiro de Mato Grosso do Sul, Gilberto destacou a importância do debate e demonstrou satisfação em participar de um encontro internacional com foco no meio ambiente e no bioma Pantanal.

Ele participou do painel “De corredores bioculturais a iniciativas de ciência cidadã”, que reuniu também Rafaela Nicola (Mupan/Wetlands International Brasil), Román Baigún (Wetlands International LAC), Cátia Nunes da Cunha (UFMT), Isidoro Salomão (Comitê Popular do Rio Paraguai/Pantanal) e teve moderação de Sebastián Abad Jara (AIDA).

Em sua fala, Gilberto reforçou a necessidade de integração entre diferentes saberes. “Se a gente juntar as forças de todos os conhecimentos, de todo conhecimento científico e cultural, se juntando todos [...] a gente possa levar todo mundo junto e chegar num ponto de que a gente possa combater e conhecer melhor o novo sistema global”, afirmou.

Ele também alertou para a importância de dar continuidade às discussões após o evento. “não só apenas aqui nesse encontro e sair daqui e esquecer novamente de todos isso, não seria uma boa resposta”, disse.

O líder indígena ainda destacou a relevância da COP15 ser realizada em Mato Grosso do Sul e o espaço dado ao Pantanal no debate ambiental. “fiquei muito contente com esse encontro de Copa 15 que no Mato Grosso do Sul, que o Pantanal sempre foi esquecido”, afirmou.

A ecóloga Rafaela Nicola, diretora executiva da Wetlands International Brasil e diretora técnico-científica da Mupan, que também participou do painel, destacou a necessidade de articulação política e institucional para garantir a preservação em larga escala. “A conservação de grandes áreas e paisagens, especialmente quando falamos em conectividade ecológica e integridade dos ecossistemas, passa necessariamente por soluções políticas e por uma articulação entre agendas nacionais e internacionais. Isso envolve acordos, salvaguardas e mecanismos institucionais, mas também o diálogo entre diferentes formas de conhecimento”, afirmou.

Território Kadiwéu e papel na conservação

A participação de Gilberto também chama atenção para a importância do território indígena Kadiwéu na conservação ambiental. Localizado em Mato Grosso do Sul, ele é considerado o maior território indígena fora da Amazônia Legal, com cerca de 538 mil hectares.

A área abrange três biomas, o que amplia sua relevância ecológica. Essa diversidade faz com que os povos indígenas da região tenham conhecimento direto sobre a interação entre diferentes ecossistemas e seu equilíbrio.

Nesse contexto, os kadiwéu são reconhecidos como guardiões não apenas do Pantanal, mas também de outros biomas presentes no território, contribuindo para a preservação ambiental e para a manutenção da biodiversidade.

Conectividade ecológica e papel das comunidades

A conectividade ecológica — ligação entre áreas naturais que permite o deslocamento de espécies — foi um dos principais temas debatidos nos eventos paralelos da COP15.

Durante as discussões, representantes do governo federal destacaram o papel das comunidades tradicionais na preservação ambiental. Segundo Carlos Eduardo Marinello, do Ministério do Meio Ambiente, essas populações são fundamentais para a proteção dos ecossistemas.

“Os povos tradicionais se relacionam de forma diferenciada com os territórios e são os principais usuários diretos dos recursos naturais. A presença dessas comunidades evita a ocupação por aqueles que buscam o uso ilícito da terra, funcionando como guardiãs da conectividade”, afirmou.

A importância do tema também foi reconhecida internacionalmente. A secretária-executiva da CMS, Amy Fraenkel, avaliou como positiva a inclusão da conectividade ecológica nas políticas públicas brasileiras. “Esta agenda da conectividade está, de fato, inserida na política. É uma grande vitória ver este tema incorporado nos esforços do Governo do Brasil”, destacou.

A interligação de ecossistemas é essencial para a sobrevivência de espécies migratórias, que dependem de ambientes contínuos para reprodução e deslocamento. Barreiras como estradas, barragens e expansão urbana podem comprometer esse fluxo.

Com o lema “Conectando a natureza para sustentar a vida”, a COP15 reúne representantes de diversos países em Campo Grande para discutir estratégias de conservação e cooperação internacional.

Da Redação
Fotos: Natureza em Foco




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