24 de Ago, 2026
Onçafari registra os primeiros casos de melanismo em cervos-do-pantanal no Pantanal e no Cerrado
24 de Ago, 2026

Pesquisadores do Onçafari, ONG que trabalha para a conservação da biodiversidade brasileira, em parceria com um pesquisador da Embrapa Pantanal, registraram os primeiros casos de melanismo em cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus). A descoberta inédita para a espécie foi detalhada em uma nota científica publicada na revista Notas sobre Mamíferos Sudamericanos, ampliando o conhecimento sobre anomalias de pigmentação em cervídeos sul-americanos. 

Até então, apenas casos de albinismo e leucismo haviam sido documentados na espécie. O melanismo, mutação genética que gera excesso de melanina e confere pelagem escura, foi identificado em dois biomas: no Pantanal (na base de operações do Onçafari na Caiman Pantanal) e no Cerrado, no Parque Nacional Grande Sertão Veredas (PNGSV).

O Pantanal é o bioma que abriga 88% da população brasileira da espécie, cerca de 40 mil indivíduos. Em mais de 40 anos de pesquisas e levantamentos aéreos da espécie no bioma nunca havia sido identificado nenhum indivíduo com melanismo. Esta fêmea adulta avistada pela equipe do Onçafari foi o primeiro registro publicado até o momento.

Já no Cerrado, onde o cervo-do-pantanal é criticamente ameaçado de extinção, a frequência foi surpreendentemente alta: entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026, 66,7% das observações diretas envolveram indivíduos melânicos, somando ao menos dois machos distintos. Depois da aceitação da nota científica pela revista, a equipe segue registrando estes indivíduos, inclusive com um registro recente de um macho juvenil com a mesma mutação genética.

"Estes registros no Cerrado servem de alerta para a conservação da espécie no bioma, pois essa mutação pode indicar que a saúde genética da população está em risco. Acreditamos que esses animais estejam bem confinados nos limites do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, já que as áreas externas já estão bem degradadas e têm uma pressão de caça ainda maior. Isto resulta em isolamento populacional e, muito possivelmente, uma maior frequência de indivíduos com melanismo", afirma Edu Fragoso, Coordenador da base do Onçafari no Parque Nacional Grande Sertão Veredas e coautor do estudo.

A alta proporção de indivíduos melânicos em populações reduzidas e fragmentadas do Cerrado pode ser reflexo de deriva genética, isolamento e endogamia. O especialista reforça a necessidade de novos estudos para entender padrões e impactos para direcionar as estratégias de conservação da espécie.

Outros estudos recentes, ainda incipientes, apontam alguns efeitos negativos da alta pigmentação das espécies, como menores taxas de sobrevivência e reprodução, maiores chances de predação por grandes carnívoros (como as onças-pintadas), maior vulnerabilidade a doenças e dificuldades de termorregulação.

A publicação destaca o impacto direto da frente de Ciência da ONG Onçafari, que já soma cerca de 40 artigos científicos publicados e monitora a fauna brasileira com mais de 300 armadilhas fotográficas. O achado reforça a relevância do monitoramento contínuo em longo prazo para identificar transformações ecológicas e genéticas nas populações animais ameaçadas.

O Onçafari é uma Organização Não Governamental que tem como missão conservar a biodiversidade brasileira através da proteção de áreas naturais e do apoio ao desenvolvimento socioeconômico das comunidades locais. Trabalhamos pela preservação da biodiversidade em 4 biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica com oito frentes de atuação: Ecoturismo, Ciência, Educação, Reintrodução, Social, Florestas, Anti-incêndio e Advocacy. Em 2025, o Onçafari foi eleito pela segunda vez entre as 100 melhores ONGs do Brasil. Em 2026, o fundador do Onçafari, Mario Haberfeld foi o único brasileiro entre os premiados pela Schwab Foundation e o Onçafari foi a única organização com foco em meio ambiente. Mais informações em www.oncafari.org.

Foto: Divulgação / Taile Emanuele



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