Encontrar trabalho em uma indústria de celulose, aprender a operar máquinas no campo, dirigir profissionalmente pelas novas rotas logísticas, trabalhar com tecnologia ou transformar uma habilidade em fonte de renda. Em um Estado com 79 municípios e realidades econômicas muito diferentes, a qualificação profissional passou a acompanhar também as mudanças no mapa do emprego em Mato Grosso do Sul.
É essa ligação entre formação, oportunidade de trabalho e desenvolvimento regional que o governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, pretende aprofundar em um eventual segundo mandato. Durante sua primeira gestão, a política de qualificação foi ampliada num momento em que a chegada de novas indústrias, a expansão do agronegócio, da logística, dos serviços e da tecnologia começaram a mudar o tipo de profissional procurado pelas empresas em diferentes regiões do Estado.
O resultado aparece tanto na variedade quanto na escala das ações. O balanço consolidado entre 2023 e agosto de 2026 registra 517.559 matrículas, participações, atendimentos ou conclusões em ações de qualificação e capacitação. O levantamento reúne diferentes bases e metodologias e, por isso, o número não representa 517,5 mil pessoas diferentes, mas registros de formação realizados no período. Ao mesmo tempo, foram reunidas cerca de 980 opções de cursos em dez áreas da economia, do agronegócio e da indústria à tecnologia, comércio, serviços e transportes.
Mais do que a quantidade, porém, o que ajuda a compreender a estratégia adotada pelo Governo Riedel é a distribuição dessas formações de acordo com as transformações econômicas de cada território. A ideia é que a qualificação deixe de funcionar como uma oferta genérica de cursos e se aproxime das oportunidades que surgem onde as pessoas vivem – seja nos polos industriais, nas regiões agrícolas, nos corredores logísticos ou nas cidades onde o crescimento aumenta a demanda por comércio e serviços.
Curso diferente para uma economia diferente
Em Três Lagoas, um dos principais polos industriais de Mato Grosso do Sul, aparecem formações em condução segura com prática simulada de cargas, transporte de madeira, operação de drones e desenvolvimento de sistemas. Em Ribas do Rio Pardo, onde a cadeia florestal ganhou peso com os novos investimentos industriais, há cursos de Técnico em Florestas, segurança no trabalho rural, drones e operação de tratores.
Em Chapadão do Sul, com uma economia fortemente vinculada ao agronegócio, entram no cardápio primeiros socorros, trabalho em altura, segurança em silos e espaços confinados e operação de drones. Já em Água Clara há capacitação para operação e manutenção de motosserras, prevenção e combate a incêndios rurais e informática. Em Inocência, que vive uma rápida transformação econômica, as formações incluem informática, comunicação, confeitaria e artesanato, mostrando que o crescimento de um grande empreendimento também abre espaço para pequenos negócios e novos serviços locais.
É uma mudança importante de lógica. A expansão econômica cria empregos especializados nas próprias indústrias, mas movimenta também transporte, alimentação, comércio, manutenção, tecnologia, hospedagem e uma extensa rede de fornecedores. A qualificação profissional passa, portanto, a funcionar como uma ponte entre dois movimentos: de um lado, empresas procurando trabalhadores; do outro, pessoas tentando encontrar espaço em uma economia que exige conhecimentos diferentes dos cobrados poucos anos atrás.
Os números dos programas do Governo Riedel revelam algumas dessas portas de entrada. O Voucher Transportador alcançou 2.432 participantes, enquanto o Voucher Qualificação atendeu 1.420 pessoas em 88 cursos e o Voucher Desenvolvedor de Sistemas registrou 372 participantes. A Educação Profissional soma ainda cerca de 50 mil matrículas, com R$ 230 milhões indicados para a modalidade em 2026.
A expansão também chegou ao interior. Em uma base específica que contabiliza apenas concluintes — portanto, sem ser somada novamente ao total geral — foram registradas 67.313 conclusões entre 2023 e 2026. Três Lagoas responde por 6.963 delas, seguida, entre os municípios destacados, por Ribas do Rio Pardo, com 2.379; Aparecida do Taboado, com 2.319; Bataguassu, com 1.511; Água Clara, com 1.330; e Inocência, com 584.
Qualificação no meio de uma economia em transformação
O esforço ocorre em um período de forte expansão do mercado de trabalho sul-mato-grossense. O levantamento consolidado aponta saldo de 119.225 empregos líquidos entre janeiro de 2022 e julho de 2026. O dado tem período diferente daquele utilizado para medir a qualificação e não permite atribuir a geração dessas vagas a um único programa, mas ajuda a dimensionar o ambiente econômico no qual a política de formação profissional foi ampliada.
Outro indicador ajuda a colocar esse movimento em perspectiva. Mato Grosso do Sul passou da 17ª posição, em 2022, para a segunda colocação nacional em Capital Humano em 2025, segundo os dados utilizados no levantamento estadual.
A questão que começa a se colocar para o Estado, portanto, não é apenas quantas pessoas podem entrar em uma sala de aula ou receber um certificado. “O desafio seguinte é fazer com que a formação encontre, do outro lado, uma vaga de trabalho ou uma possibilidade concreta de geração de renda”, explica Riedel.
Essa é justamente uma das mudanças de ênfase apresentadas por Riedel para 2027 a 2030.
Próxima etapa quer aproximar ainda mais curso e emprego
O Plano de Governo para um segundo mandato propõe aprofundar a conexão entre formação profissional e os investimentos que chegam ao Estado. Entre as diretrizes estão qualificação alinhada aos empreendimentos atraídos, requalificação de trabalhadores para novas tecnologias, políticas específicas para jovens e grupos vulneráveis, retenção de talentos, inclusão produtiva e fortalecimento da intermediação entre empresas e trabalhadores.
Na prática, a proposta procura antecipar uma questão que tende a ganhar importância à medida que Mato Grosso do Sul se industrializa: não basta trazer uma fábrica se parte das melhores vagas precisar ser ocupada por profissionais de fora porque não houve tempo para preparar trabalhadores locais.
O plano prevê ainda que a educação profissional seja orientada pelas vocações regionais, aproximando escola, qualificação e realidade econômica de cada território. Isso significa reconhecer que as necessidades de Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo, fortemente vinculadas à cadeia florestal e industrial, não são necessariamente as mesmas de municípios ligados à agricultura, ao turismo, à logística ou aos serviços.
Algumas metas já são mensuráveis. Riedel propõe chegar a pelo menos 5 mil trabalhadores habilitados nas categorias D e E até 2030, ampliando a formação de motoristas profissionais em um Estado no qual indústria, agronegócio e corredores logísticos aumentam a demanda pelo transporte de cargas. Na área de tecnologia, a meta é formar ao menos 400 desenvolvedores até 2030.
A inclusão deverá ganhar também uma dimensão específica no mercado de trabalho. Para pessoas com deficiência, o plano estabelece a criação de um Programa de Emprego Apoiado com no mínimo mil vagas, enquanto a estratégia social mais ampla pretende combinar renda, segurança alimentar, educação, creche, qualificação e encaminhamento ao emprego para famílias em situação de vulnerabilidade.
Nesse modelo, a assistência social não desaparece quando começa a qualificação. “A proposta é construir um caminho em que proteção social, formação e trabalho se complementem até que a família tenha condições de conquistar maior autonomia econômica”, pontua o governador.
Preparar hoje o trabalhador que será necessário amanhã
Há uma diferença importante entre essa agenda e a ideia tradicional de oferecer cursos simplesmente porque existem vagas disponíveis em determinada turma. O que o governo pretende consolidar é uma política que comece olhando para o futuro da economia: quais empresas estão chegando, quais cadeias produtivas estão crescendo, que profissões serão procuradas e que conhecimento um trabalhador precisará ter para disputar essas oportunidades.
É por isso que, ao lado das formações já presentes no cotidiano — motorista, operador de máquinas, trabalhador rural, vendedor, profissional da alimentação ou dos serviços — aparecem drones, desenvolvimento de sistemas, análise de dados e novas tecnologias.
O próprio Plano de Governo define o segundo mandato como uma etapa de ampliação e consolidação das políticas iniciadas desde 2023, procurando transformar crescimento econômico em emprego, renda e mobilidade social.
No caso da qualificação profissional, essa ideia pode ser traduzida de maneira simples: se o primeiro passo foi ampliar as oportunidades de aprender, o próximo será aproximar ainda mais aquilo que se aprende daquilo que o mercado de trabalho precisa.
Para quem está procurando o primeiro emprego, tentando mudar de profissão ou vendo uma grande indústria transformar a cidade onde vive, essa aproximação é o que pode fazer o crescimento econômico deixar de ser apenas um número e passar a significar uma oportunidade concreta de melhorar de vida.
“O trabalhador de Mato Grosso do Sul precisa estar preparado para ocupar as vagas geradas pelas empresas que chegam ao Estado. Por isso, fizemos da qualificação profissional uma política ligada à realidade de cada região e às novas demandas da nossa economia. No próximo mandato, queremos avançar ainda mais: antecipar as necessidades das empresas, requalificar quem já está no mercado e garantir que o crescimento do Estado se transforme em emprego, renda e oportunidade para quem vive aqui”, conclui Riedel.